O escoliômetro dá um número em graus. Esse número é o ângulo de rotação do tronco (ATR) — o quanto um lado das costas sobe acima do outro quando a pessoa se inclina para a frente. É uma medida de triagem da assimetria do tronco. Não é o ângulo de Cobb, não é um diagnóstico, e o mesmo número pode significar coisas diferentes em pessoas diferentes. Se alguém falou em “X graus de escoliose”, provavelmente estava falando do ângulo de Cobb, medido em uma radiografia: este guia trata de outro número. Aqui você vê como ler as faixas mais usadas — 5°, 7° e 10° — e o que fazer depois de cada uma.

A versão curta. Abaixo de 5° a leitura costuma ser considerada baixa. A faixa de 5°–6° merece atenção e uma nova medição feita com calma. 7° ou mais é o limiar mais usado no mundo para sugerir uma avaliação profissional — e, no Brasil, é exatamente o número da orientação que a atenção primária consulta. A Nota Técnica sobre o Atendimento de Escoliose em Crianças e Adolescentes, da Secretaria Estadual da Saúde do Rio Grande do Sul (16/04/2024), escrita com o TelessaúdeRS-UFRGS, define assim o resultado do teste de Adams: “Um resultado positivo é indicado por assimetria ≥ 7 graus, em crianças com índice de massa corporal (IMC) no percentil < 85, ou ≥ 5 graus, em crianças com IMC no percentil ≥ 85.”
O escoliômetro é um auxílio de triagem. Não diagnostica escoliose, não mede o ângulo de Cobb e não substitui a radiografia nem a avaliação de um profissional. Se a leitura estiver alta, o caminho é a UBS: leve o registro e converse com o médico da família ou com o pediatra.
Quando alguém faz o teste de Adams, qualquer rotação da coluna levanta as costelas ou os músculos de um lado mais do que do outro. Você apoia o escoliômetro — um físico ou o aplicativo Scoliometer no celular — atravessado sobre as costas, no ponto mais alto dessa gibosidade, e o aparelho lê a inclinação em graus. Essa inclinação é o ATR. É o mesmo sinal que a orientação brasileira chama, na linguagem oficial, de proeminência paraespinhal assimétrica: é assim que ele pode aparecer escrito em um encaminhamento.
Como o ATR mede a superfície das costas e não o osso, ele é um sinal indireto. Acompanha a curva da coluna, mas sem precisão. Coelho e colaboradores (2013, USP de Ribeirão Preto) mediram 64 participantes em 17 níveis da coluna e encontraram correlação de r = 0,7 com o ângulo de Cobb naquela amostra — é o valor daquele estudo, e não uma constante que se aplique a uma pessoa. Um ATR maior costuma acompanhar uma curva maior, mas não dá para converter um no outro. Por isso as seções abaixo falam do que fazer em cada leitura, e não do ângulo de Cobb a que ela “equivaleria”. A comparação completa está em ATR e ângulo de Cobb.
| Leitura do ATR | Como se interpreta | O que fazer, no Brasil |
|---|---|---|
| 0°–4° | Baixa. Pequenas assimetrias nessa faixa são muito comuns: Bunnell (1993) mediu 1.000 estudantes e 80% tinham 3° ou mais de ATR. | Acompanhamento de rotina, principalmente durante o estirão de crescimento. Anote o valor e a data para poder comparar depois. |
| 5°–6° | Faixa de atenção. É o critério de Bunnell (1984), definido para identificar curvas de 20° ou mais de Cobb, e não qualquer escoliose. | Repita a medição com calma (mesma pessoa, mesmo nível das costas). É exatamente aqui que a orientação brasileira já considera o teste positivo, quando o IMC está no percentil 85 ou acima. |
| 7°–9° | Elevada. É o limiar de encaminhamento mais citado, proposto por Bunnell (1993). | Leve a leitura à UBS. Para uma criança com IMC abaixo do percentil 85, é esta a linha brasileira: assimetria de 7 graus ou mais é um resultado positivo no teste de Adams. |
| 10° ou mais | Claramente elevada. Continua sendo um ATR: não é um ângulo de Cobb nem um diagnóstico. | Procure avaliação sem demora, começando pela UBS. A radiografia, quando indicada, é pedida pelo profissional. |
| Um aumento que se mantém quando você repete a medição | Vale ser mostrado mesmo que o número atual pareça moderado: a tendência informa mais do que uma leitura isolada. Medições repetidas das mesmas costas podem variar vários graus, então um único valor mais alto não é, sozinho, prova de mudança. | |
Essas faixas vêm da triagem com escoliômetro (Bunnell, 1984 e 1993), e cada serviço fixa o seu ponto de corte de um jeito um pouco diferente, quase sempre entre 5° e 7°. No Brasil vale ser exato sobre o estatuto desses números: não existe um PCDT de escoliose — a Conitec não publicou nenhum — e os Protocolos de Encaminhamento para Ortopedia do Ministério da Saúde com a UFRGS não tratam de escoliose em nenhum dos seus dez protocolos. O que existe é a orientação do TelessaúdeRS-UFRGS, a mesma unidade que coproduz aqueles protocolos nacionais, e a Nota Técnica da Secretaria Estadual da Saúde do Rio Grande do Sul. Não é um protocolo nacional obrigatório, mas é a referência que o médico da atenção primária consulta — e ela usa praticamente as mesmas faixas desta tabela. Vale notar que o mesmo documento diz, na mesma página, que “não há evidências para apoiar a implementação de rastreamento da escoliose em crianças e adolescentes”: o Brasil não organiza um programa populacional, mas diz com precisão qual número importa para quem examina as costas de uma criança. É por isso que estas faixas caminham ao lado da orientação brasileira, e não contra ela. Se você procura a tabela geral de faixas, ela está em valores normais do escoliômetro.
Cinco graus fica bem na fronteira. Sozinho não é alarmante, mas é o ponto em que quem está medindo interrompe e presta atenção, em vez de seguir adiante. O critério vem de Bunnell (1984), que o propôs a partir de 1.065 pacientes como bom critério para identificar curvas de 20° ou mais de Cobb, e não “qualquer escoliose”. Essa diferença importa: quem entende que os 5° procuram qualquer desvio acaba superinterpretando um achado que, na verdade, é comum. Para dar contexto ao número: nos 1.000 estudantes de Bunnell (1993), 80% tinham 3° ou mais de ATR. Uma assimetria pequena é o normal, não uma descoberta.
Três coisas decidem o que fazer com um 5°:
A resposta sensata a um 5° que se repete não é o pânico nem a desvalorização: é encurtar o intervalo entre as verificações e observar a tendência. Em acompanhamento no estirão de crescimento você vê com que frequência vale repetir a medição.
Sete graus é o número para onde aponta a maior parte da orientação de triagem — e, no Brasil, é literalmente a linha que o médico da atenção primária tem diante de si. O TelessaúdeRS-UFRGS e a Nota Técnica do Rio Grande do Sul consideram positivo o teste de Adams com “assimetria ≥ 7 graus, em crianças com índice de massa corporal (IMC) no percentil < 85”. Isso não significa que exista uma curva confirmada, nem diz qual é o tamanho dela: significa que a assimetria do tronco já está marcada o suficiente para um profissional olhar.
E 7° não é um número importado. As duas maiores triagens brasileiras com escoliômetro publicadas usaram exatamente ATR ≥7° como gatilho para pedir radiografia: Penha e colaboradores avaliaram 2.562 adolescentes de 10 a 14 anos em três cidades do estado de São Paulo, e Dantas e colaboradores avaliaram 520 adolescentes de 10 a 16 anos em Petrolina, no sertão de Pernambuco. O limiar em si vem de Bunnell (1993), e vale saber por que ele escolheu esse número: nos 1.000 estudantes que mediu, encaminhar a partir de 7° significava encaminhar 3%, enquanto encaminhar a partir de 5° significava encaminhar 12%. É uma decisão de eficiência da triagem, não uma fronteira biológica.
Você vai ler por aí que um ATR de 7° “equivale”, em média, a uns 20° de Cobb. Não existe conversão confiável: um escoliômetro, físico ou de celular, nunca entrega um ângulo de Cobb. A conclusão prática é mais simples: a partir de 7°, marque a avaliação — procure a UBS e converse com o médico da família ou o pediatra — em vez de esperar para ver se o número sobe.
Um aviso sobre a outra metade da lista brasileira. A mesma Nota Técnica que fixa a assimetria de 7 graus (ou de 5 graus, conforme o IMC) traz, logo depois, critérios de ângulo de Cobb: o diagnóstico se confirma com “ângulo de Cobb ≥ 10 graus no plano coronal”; o encaminhamento para a alta complexidade vem com Cobb ≥ 20 graus (de 0 a 10 anos) ou ≥ 25 graus (acima de 10 anos); e há ainda um critério de “progressão ≥ 5 graus” em radiografias de acompanhamento. Todos esses números se medem em uma radiografia panorâmica de coluna total e pertencem ao lado do especialista. Quem tem um escoliômetro na mão nunca mede um ângulo de Cobb: o que sai de um escoliômetro é sempre um ATR, e as duas escalas não se comparam. Aquela “progressão ≥ 5 graus”, em particular, é um critério radiográfico — não é, e não deve ser lida como, um limiar de progressão do escoliômetro.
Dez graus é claramente elevado e pede avaliação profissional sem demora; mas, de novo, continua sendo um ATR — não um ângulo de Cobb e não um diagnóstico. O profissional examina as costas, faz a história clínica e, quando for o caso, pede uma radiografia panorâmica de coluna total (de C7 a L5, em pé). A escoliose só se confirma ali, com ângulo de Cobb de 10 graus ou mais.
No Brasil o percurso é conhecido, e conhecê-lo evita surpresas. A porta de entrada é a UBS, com o médico da família ou o pediatra: é quem faz o teste de Adams, pede a radiografia e, se for o caso, encaminha para a traumato-ortopedia. Antes de encaminhar, esse médico ainda pode pedir apoio remoto de um especialista pelo próprio TelessaúdeRS. O encaminhamento entra na regulação — a fila do SISREG ou do sistema estadual equivalente —, e a consulta pode não ser rápida. Nada disso é motivo para susto: é o motivo pelo qual um registro datado, com as leituras sempre feitas do mesmo jeito, é útil. Ele viaja com a criança pela fila e mostra ao especialista o que aconteceu no intervalo. Como cerca de três quartos dos brasileiros dependem só do SUS — a ANS contava 53,2 milhões de beneficiários de planos de saúde em dezembro de 2025 —, para muita gente esse registro é a única coisa que documenta o antes. Sobre quem avalia e quando: quando procurar avaliação profissional.
E vale manter a proporção junto com a seriedade. Nas três cidades paulistas de Penha e colaboradores, entre os adolescentes encaminhados por ATR ≥7°, 76 tinham ângulo de Cobb abaixo de 10° — ou seja, não tinham escoliose — contra 37 com Cobb de 10° ou mais. Uma leitura acima do limiar é um motivo para verificar, não um veredito. Na mesma pesquisa, a prevalência de escoliose idiopática do adolescente confirmada por radiografia ficou em 1,5% (IC 95% 1,0–1,9), com 2,2% entre as meninas e 0,5% entre os meninos, e 75% das curvas com 22° de Cobb ou menos; em Petrolina, Dantas e colaboradores encontraram 3,1%. A maior parte das curvas que a triagem encontra é pequena e é acompanhada com observação, exercício ou colete, e não com cirurgia.
Uma leitura vale o que valem as condições em que foi feita. A mesma pessoa pode dar números diferentes conforme:
É por isso que a técnica pesa tanto. Se os seus números pulam, revise como usar o escoliômetro e os erros comuns ao medir o ATR antes de tirar conclusão de um único valor. E se o ATR se mexe sem o ângulo de Cobb se mexer, isso tem explicação própria: o ATR pode mudar sem mudar o ângulo de Cobb.
A pesquisa revisada por pares sobre medir o ATR com celular descreve, em geral, boa concordância com o escoliômetro físico e boa consistência quando se usa sempre a mesma técnica: Balg e colaboradores (2014) encontraram diferença média de 0,4° em relação ao escoliômetro, com limites de concordância de 95% de ±3,1°. Esses trabalhos avaliaram o método e vários aplicativos, e não este aplicativo em específico: o de van West e colaboradores (2022) incluiu 50 adolescentes já diagnosticados, com ângulo de Cobb médio de 38,5°, e usou um celular dentro de uma capa específica, de modo que os números dele não se transferem direto para a triagem de crianças saudáveis em casa. No Brasil o ponto é ainda mais prático: o celular costuma ser o único instrumento de medida que existe dentro de casa, porque um escoliômetro físico não é algo que uma família brasileira tenha. Em resumo, o celular pode dar um ATR repetível para triar e para acompanhar, mas um número alto, ou que vem subindo, é motivo para procurar a UBS, nunca um substituto da consulta. Os detalhes estão em precisão dos aplicativos de escoliômetro.
Não. O escoliômetro mede o ângulo de rotação do tronco na superfície das costas. O ângulo de Cobb é medido em uma radiografia da coluna. Os dois se relacionam, mas não são intercambiáveis, e nenhum escoliômetro consegue dar um ângulo de Cobb.
Cinco graus é um valor de atenção, não de alarme, e muitas leituras dessa faixa não correspondem a uma curva importante. Meça de novo com calma, anote cada leitura com a data e encurte o intervalo entre as verificações, principalmente durante o estirão de crescimento. Se o índice de massa corporal estiver no percentil 85 ou acima, a orientação brasileira já considera positivo um resultado de 5 graus ou mais — nesse caso, leve a leitura à UBS e converse com o médico da família ou o pediatra.
Não. 7° é o limiar que a maior parte dos programas de triagem usa para sugerir uma avaliação profissional, e é também a linha da orientação que a atenção primária brasileira consulta para uma criança com IMC abaixo do percentil 85. Não é um diagnóstico: nas três cidades paulistas de Penha e colaboradores, dos adolescentes encaminhados por ATR ≥7°, 76 tinham ângulo de Cobb abaixo de 10° contra 37 com Cobb de 10° ou mais. Só um profissional, normalmente com uma radiografia, confirma escoliose e mede a curva.
A nenhum: não existe conversão confiável. Em média, um ATR maior acompanha uma curva maior — no estudo brasileiro de Coelho e colaboradores (2013) a correlação com o ângulo de Cobb foi r = 0,7 naquela amostra —, mas esse é o valor daquele estudo e não uma constante, e a dispersão entre pessoas é grande. Historicamente associaram 7° a cerca de 20° de Cobb, e isso é uma regra prática antiga, nunca uma conversão aplicável a uma pessoa concreta.
Pequenas diferenças na profundidade da inclinação, na colocação do aparelho, no nível das costas medido, em quem mede e na posição do corpo mudam a leitura. Balg e colaboradores (2014) mediram limites de concordância de ±3,1° entre o celular e o escoliômetro físico e de ±4,4° entre dois examinadores diferentes. Percorra a coluna inteira, anote o valor mais alto e procure fazer com que meça sempre a mesma pessoa, com a mesma técnica.
As duas. Percorra a coluna inteira com a pessoa inclinada para a frente e anote o ATR mais alto que encontrar. A rotação pode aparecer na região torácica (a parte de cima) ou na lombar (a parte de baixo).
O que importa não é uma leitura mais alta isolada, e sim um aumento que se mantém quando você repete a medição do mesmo jeito em outro dia. Medições repetidas das mesmas costas podem variar vários graus: Navarro e colaboradores (2020, UFRGS) compararam duas formas válidas de medir a mesma rotação do tronco e encontraram um erro quadrático médio de 3°. Um único valor mais alto não é, sozinho, prova de mudança. Se o aumento se confirmar, leve o registro à UBS sem esperar pela verificação seguinte.
Os limiares de 5° e 7° vêm da triagem de crianças e adolescentes, e o mesmo vale para a orientação brasileira, escrita para a escoliose idiopática do adolescente. Um adulto pode usar o escoliômetro para triar e para acompanhar a evolução, mas convém conversar sobre a interpretação de um valor concreto com um profissional, porque a coluna adulta muda por outras razões.
O aplicativo Scoliometer mede o ângulo de rotação do tronco e deixa você anotar cada leitura, para que você acompanhe a tendência em vez de reagir a um número isolado. É um auxílio de triagem, não um dispositivo de diagnóstico.
Aviso médico: este guia é material educativo geral e de conscientização sobre triagem. Não é aconselhamento médico e não diagnostica escoliose nem qualquer outra condição da coluna. Um escoliômetro — inclusive um escoliômetro no celular — mede o ângulo de rotação do tronco como auxílio de triagem; não é o mesmo que o ângulo de Cobb e não substitui uma radiografia nem a avaliação de um profissional. Os resultados variam de pessoa para pessoa conforme a idade, a maturidade esquelética, o tipo de curva, o biotipo, a técnica de medição e a consistência com que as leituras são feitas. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado sobre a sua coluna ou a do seu filho.