Um escoliómetro dá um número em graus. Esse número é o ângulo de rotação do tronco (ATR; a sigla ART aparece nas fontes clínicas portuguesas) — o quanto um lado das costas sobe acima do outro quando a pessoa se inclina para a frente. É uma medição de rastreio da assimetria do tronco. Não é o ângulo de Cobb, não é um diagnóstico, e o mesmo número pode significar coisas diferentes em pessoas diferentes. Se alguém disse que o seu filho tem «X graus de escoliose», é provável que se refira ao ângulo de Cobb, medido numa radiografia: este guia trata de outro número. Aqui explica-se como ler os limiares habituais — 5°, 7° e 10° — e o que fazer a seguir em cada caso.

A versão curta. Abaixo de 5° a leitura é, em geral, considerada baixa. A faixa dos 5°–6° merece atenção e uma nova medição cuidadosa. 7° ou mais é o limiar mais utilizado internacionalmente para sugerir uma avaliação profissional. Em Portugal não existe um limiar nacional para o escoliómetro — não há norma da DGS sobre escoliose e a SPOT não publicou nenhum protocolo da coluna —, mas existe uma referência portuguesa: o TeenTAC, da Sociedade Portuguesa de Medicina do Adolescente com a Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar, encaminha para Ortopedia com ART ≥7° quando o IMC está abaixo do percentil 85, e com ART ≥5° quando o IMC está no percentil 85 ou acima.
O escoliómetro é um auxiliar de rastreio. Não diagnostica escoliose, não mede o ângulo de Cobb e não substitui a avaliação de um profissional nem os exames de imagem.
Quando alguém faz o teste de Adams, qualquer rotação da coluna eleva as costelas ou os músculos de um lado acima do outro. Ao apoiar um escoliómetro — físico ou a aplicação Scoliometer no telemóvel — atravessado sobre as costas, no ponto mais alto dessa gibosidade (a que vulgarmente se chama corcunda), o aparelho mede essa inclinação em graus. É isso o ATR. E é exatamente o instrumento que o material português para médicos descreve: «O escoliómetro é utilizado para rastreio da escoliose e quantificação do ângulo de rotação do tronco», escreve o TeenTAC.
Como o ATR mede a superfície das costas e não os ossos, é um sinal indireto. Tem relação com a curvatura da coluna, mas de forma imprecisa: os estudos publicados situam essa correlação entre r = 0,46 e r = 0,54 (Amendt e colaboradores, 1990, em 65 pessoas já diagnosticadas) e r = 0,7 (Coelho e colaboradores, 2013, numa amostra de 64 participantes, metade casos e metade controlos). Por outras palavras: um ATR maior costuma acompanhar uma curva maior, mas não se converte um no outro. É por isso que as secções seguintes falam do que fazer em cada leitura e não do ângulo de Cobb a que ela «equivale». A comparação completa está em ATR e ângulo de Cobb.
| Leitura (ATR) | Como se interpreta | O que fazer, em Portugal |
|---|---|---|
| 0°–4° | Baixa. Pequenas assimetrias nesta faixa são muito frequentes: Bunnell (1993) mediu 1 000 alunos e 80% tinham 3° ou mais de ATR. | Vigilância habitual, sobretudo durante o surto de crescimento. Registe o valor para poder comparar mais tarde. |
| 5°–6° | Faixa de atenção. É o critério de Bunnell (1984), estabelecido para identificar curvas de 20° ou mais de Cobb, e não qualquer escoliose. | Repita a medição com calma (mesma pessoa, mesmo nível das costas). É precisamente aqui que a orientação portuguesa já encaminha, se o IMC estiver no percentil 85 ou acima. |
| 7°–9° | Elevada. É o limiar de encaminhamento mais citado, proposto por Bunnell (1993). | Marque uma avaliação. Para uma criança de constituição média, é esta a linha portuguesa: o TeenTAC encaminha para Ortopedia a partir de ART ≥7° com IMC abaixo do percentil 85. |
| 10° ou mais | Claramente elevada. Continua a ser um ATR: não é um ângulo de Cobb nem um diagnóstico. | Avaliação profissional sem demora, habitualmente com radiografia pedida do lado do especialista. |
| Uma subida que se mantém ao repetir a medição | Vale a pena mostrá-la mesmo que o valor atual pareça moderado: a tendência informa mais do que uma leitura isolada. Medições repetidas das mesmas costas podem diferir vários graus, por isso um único valor mais alto não é, por si só, prova de alteração. | |
Estas faixas vêm do rastreio com escoliómetro (Bunnell, 1984 e 1993) e cada serviço pode fixar o seu ponto de corte de forma ligeiramente diferente, quase sempre entre 5° e 7°. Em Portugal convém ser claro sobre o estatuto destes números: não existe nenhum limiar nacional. A Direção-Geral da Saúde não publicou qualquer norma sobre escoliose, e os cinco protocolos clínicos publicados pela Sociedade Portuguesa de Ortopedia e Traumatologia não incluem nada sobre a coluna. O que existe é o TeenTAC — material educativo da Sociedade Portuguesa de Medicina do Adolescente com a Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar. Não é uma norma vinculativa, mas é português, é de sociedades profissionais e é citável — e assenta praticamente sobre as mesmas faixas.
Cinco graus fica mesmo no limite. Por si só não é alarmante, mas é o ponto em que convém parar em vez de virar a página. O critério vem de Bunnell (1984), que o estabeleceu a partir de 1 065 doentes como bom critério para identificar curvas de 20° ou mais de Cobb — não «qualquer escoliose». Essa nuance importa: quem der por adquirido que os 5° procuram qualquer desvio vai sobreinterpretar um resultado que, na verdade, é comum. Para pôr o número em contexto: nos 1 000 alunos de Bunnell (1993), 80% tinham 3° ou mais de ATR. Uma pequena assimetria é o normal, não um achado.
Três coisas decidem o que fazer perante um 5°:
A resposta sensata perante um 5° estável não é o alarme nem a desvalorização: é encurtar o intervalo entre verificações e vigiar a tendência. Em rastreio durante o crescimento explica-se com que frequência convém repetir a medição; e se procura a tabela geral de faixas, está em valores normais do escoliómetro.
Sete graus é o número para onde aponta a maior parte da orientação de rastreio — e, em Portugal, é literalmente a linha do TeenTAC para uma criança de constituição média: ART ≥7° com IMC abaixo do percentil 85 justifica encaminhamento para uma consulta de Ortopedia. Não significa que exista uma curva confirmada nem diz qual é o seu tamanho: significa que a assimetria do tronco já é suficientemente marcada para que um profissional a observe. O limiar vem de Bunnell (1993), e vale a pena saber porque escolheu esse número: nos 1 000 alunos que mediu, encaminhar a partir de 7° significava encaminhar 3%, ao passo que encaminhar a partir de 5° significava encaminhar 12%. É uma decisão de eficiência do rastreio, não uma fronteira biológica.
Lê-se por vezes que um ATR de 7° «equivale» em média a uns 20° de Cobb. Não existe uma conversão fiável: a correlação publicada entre as duas medidas vai de r = 0,46 a 0,54 até r = 0,7 consoante a população estudada, o que é demasiado largo para servir a uma pessoa concreta. A conclusão prática é mais simples: a partir de 7°, marque uma avaliação em vez de esperar para ver se o número sobe.
Um aviso sobre a outra metade da lista portuguesa. A mesma página do TeenTAC que fixa o ART ≥7° e o ART ≥5° apresenta, a seguir, critérios de AC — ângulo de Cobb: «AC entre 20 e 24º no sexo masculino ou no sexo feminino, pré-menarca entre os 12 e os 14 anos», «AC >25º em qualquer utente», «Progressão do AC ≥5º em qualquer utente». Esses números medem-se numa radiografia e pertencem ao lado do especialista. Um pai com um escoliómetro nunca mede um AC — o que sai de um escoliómetro é sempre um ATR, e as duas escalas não se comparam. A última alínea, em particular, é um critério de progressão radiográfica: não é, e não deve ser lida como, um limiar de progressão do escoliómetro.
Dez graus é uma leitura claramente elevada e deve levar a uma avaliação profissional sem demora; mas, insista-se, continua a ser um ATR — não um ângulo de Cobb e não um diagnóstico. O profissional observa as costas, faz a história clínica e, quando for caso disso, pede uma radiografia para medir a curva real.
Em Portugal o percurso é conhecido: o médico de família, no centro de saúde ou na USF, faz o encaminhamento eletrónico pela CTH — Consulta a Tempo e Horas para uma consulta de Ortopedia. O tempo máximo de resposta garantido para uma primeira consulta hospitalar de especialidade com prioridade normal é de 120 dias (Portaria n.º 153/2017); na prática, a ERS registou uma mediana de 113 dias nos prestadores públicos no 1.º semestre de 2024. Para um menor de 18 anos, nem a consulta nem a radiografia têm custo: os utentes até aos 18 anos estão isentos de taxas moderadoras. Sobre quem avalia, quando e com que critérios: quando consultar um médico.
Convém manter a perspetiva ao mesmo tempo que se leva a sério. Boa parte das escolioses idiopáticas é acompanhada com observação, exercício ou colete, e não com cirurgia. Uma leitura alta é um motivo para procurar respostas, não uma sentença.
Uma leitura do escoliómetro vale o que valem as condições em que foi obtida. A mesma pessoa pode dar números diferentes consoante:
Daí que a técnica importe tanto. Se os números saltam, reveja como usar um escoliómetro e o guia de precisão das aplicações de escoliómetro antes de tirar conclusões de um único valor. E se o ATR se mexe sem o ângulo de Cobb se mexer — ou ao contrário —, a explicação está em o ATR pode mudar sem o ângulo de Cobb mudar.
A investigação revista por pares sobre a medição do ATR com telemóvel descreve, em geral, boa concordância com o escoliómetro físico e boa consistência quando se usa sempre a mesma técnica: Balg e colaboradores (2014) encontraram uma diferença média de 0,4° face ao escoliómetro, com limites de concordância a 95% de ±3,1°. Esses trabalhos avaliaram o método e várias aplicações, e não esta aplicação em concreto: o de van West e colaboradores (2022) incluiu 50 adolescentes já diagnosticados, com um ângulo de Cobb médio de 38,5°, e usou um telemóvel dentro de uma capa específica, pelo que os seus números não se transferem sem mais para o rastreio de crianças saudáveis em casa. Em resumo: o telemóvel pode dar um ATR repetível para rastrear e para acompanhar a evolução, mas um número elevado ou a subir é um motivo para consultar, nunca um substituto da consulta.
Não. O escoliómetro mede o ângulo de rotação do tronco à superfície das costas. O ângulo de Cobb mede-se numa radiografia da coluna. Estão relacionados, mas não são intermutáveis, e um escoliómetro não consegue dar um ângulo de Cobb.
Cinco graus é um valor de atenção, não de alarme, e muitas leituras desta faixa não correspondem a uma curva importante. Repita a medição com calma, registe-a e encurte o intervalo entre verificações, sobretudo durante o surto de crescimento. Se o índice de massa corporal estiver no percentil 85 ou acima, a orientação portuguesa do TeenTAC já encaminha para Ortopedia a partir de 5°.
Não. 7° é o limiar que a maior parte dos programas de rastreio utiliza para sugerir uma avaliação profissional, e é também a linha do TeenTAC para uma criança com índice de massa corporal abaixo do percentil 85. Não é um diagnóstico. Só um profissional, normalmente com uma radiografia, pode confirmar escoliose e medir a curva.
Não existe uma conversão fiável. Em média, um ATR maior acompanha uma curva maior, mas a dispersão entre pessoas é grande: a correlação publicada entre as duas medidas vai de r = 0,46 a 0,54 (Amendt e colaboradores, 1990) até r = 0,7 (Coelho e colaboradores, 2013). Historicamente associou-se 7° a cerca de 20° de Cobb, mas isso é uma regra prática antiga, nunca uma conversão aplicável a uma pessoa concreta.
Pequenas diferenças na profundidade da flexão, na colocação do aparelho, no nível das costas medido, em quem mede e na posição do corpo alteram a leitura. Balg e colaboradores (2014) quantificaram essa variação: limites de concordância de ±2,7° quando repete a mesma pessoa e de ±4,4° entre dois observadores diferentes. Percorra toda a coluna, registe o valor mais alto e procure que meça sempre a mesma pessoa, com a mesma técnica.
Nas duas. Percorra toda a coluna com a pessoa inclinada para a frente e registe o ATR mais alto que encontrar. A rotação pode aparecer na zona torácica (a parte de cima) ou na lombar (a parte de baixo).
O que importa não é uma leitura mais alta isolada, mas uma subida que se mantém quando a medição é repetida com o mesmo cuidado noutra altura e com a mesma técnica. Medições repetidas das mesmas costas podem diferir vários graus, por isso um único valor mais alto não é, por si só, prova de alteração. Se a subida se confirmar, fale com o médico de família sem esperar pela verificação seguinte.
Os limiares de 5° e 7° vêm do rastreio de crianças e adolescentes, e o mesmo se aplica aos critérios portugueses do TeenTAC, escritos para a escoliose idiopática do adolescente. Um adulto pode usar o escoliómetro para rastrear e para acompanhar a evolução, mas convém discutir a interpretação de um valor concreto com um profissional, porque a coluna adulta muda por outras razões.
A aplicação Scoliometer mede o ângulo de rotação do tronco e permite registar cada leitura, para que possa observar a tendência em vez de reagir a um número isolado. É um auxiliar de rastreio, não um dispositivo de diagnóstico.
Aviso médico: este guia destina-se apenas a educação geral e à sensibilização para o rastreio. Não constitui aconselhamento médico e não diagnostica escoliose nem qualquer outra condição da coluna. Um escoliómetro — incluindo um escoliómetro de telemóvel — mede o ângulo de rotação do tronco como auxiliar de rastreio; não é o mesmo que o ângulo de Cobb e não substitui uma radiografia nem a avaliação de um profissional. Os resultados variam de pessoa para pessoa consoante a idade, a maturidade esquelética, o tipo de curva, a constituição física, a técnica de medição e a consistência com que as leituras são feitas. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado sobre a sua coluna ou a do seu filho.