O ângulo de rotação do tronco, ou ATR, é o número que está no centro da triagem de escoliose. Ele descreve o quanto o tronco gira para um dos lados e é medido com um escoliômetro enquanto a pessoa se inclina para a frente, no teste de Adams. No Brasil, não é um número de laboratório: é o mesmo valor que a orientação consultada pelos médicos da atenção primária usa para decidir se um exame das costas deu positivo. Este guia completo explica o que é o ATR, como ele é medido, o que os valores significam, em que ele difere do ângulo de Cobb e para onde ir a seguir em cada etapa da triagem.

Quando a coluna se curva, ela também gira, e as costelas e os músculos de cada lado deixam de ficar na mesma altura. Inclinar o tronco para a frente deixa isso evidente: de um lado as costas sobem numa gibosidade e do outro descem. O ATR é o ângulo dessa inclinação de um lado para o outro, medido em graus no ponto de maior assimetria. Umas costas simétricas dão uma leitura próxima de 0°; quanto mais girado estiver o tronco, mais alto é o valor.
Vale esclarecer um detalhe que confunde muita gente: o escoliômetro mede a inclinação da superfície das costas, e essa inclinação é consequência da rotação do tronco. Como a leitura é feita sobre a pele, o ATR reflete o formato externo do tronco, e não o formato exato da coluna que está por baixo. É por isso que ele é uma medida de triagem: um sinal rápido, indolor e sem radiação que diz “isto merece um olhar mais atento” — não um diagnóstico.
E não é um número exótico por aqui. A orientação que os médicos da atenção primária brasileira consultam — o TelessaúdeRS-UFRGS, que coproduz os protocolos de encaminhamento do Ministério da Saúde, e a Nota Técnica sobre o Atendimento de Escoliose em Crianças e Adolescentes da Secretaria Estadual da Saúde do Rio Grande do Sul, de 16/04/2024 — define o teste de Adams positivo justamente em graus de assimetria do tronco. Nesses documentos, o que você enxerga nas costas é chamado de proeminência paraespinhal assimétrica: é o termo oficial que pode aparecer escrito num formulário de encaminhamento, e é a mesma coisa que a gibosidade descrita acima. Vale conhecer as duas palavras, porque você vai ouvir uma em casa e ler a outra no papel.
O ATR é obtido durante o teste de Adams, também chamado de teste de inclinação anterior. A pessoa se inclina para a frente a partir do quadril, com os joelhos esticados, os pés juntos e os braços soltos, até as costas ficarem mais ou menos horizontais — a orientação brasileira descreve a manobra como a inclinação para frente na linha da cintura, com o tronco observado por trás e com as costas descobertas. Um escoliômetro, seja o aparelho físico do tipo Bunnell, seja um escoliômetro de celular, é apoiado suavemente sobre as costas, perpendicular à coluna, e deslizado pelas regiões torácica e lombar até encontrar o ponto de maior assimetria. O maior ângulo observado é o que se anota como ATR.
A técnica passo a passo está em como usar o escoliômetro, e os deslizes que mais distorcem uma leitura estão em erros comuns ao medir o ATR. Enquanto você está medindo, lembre que a posição das costas, a mão que segura o aparelho e a altura em que a criança se inclina mudam o resultado — por isso o melhor é medir sempre do mesmo jeito. Se a ideia é fazer a verificação em casa do começo ao fim, o roteiro completo está em como verificar escoliose em casa com segurança, e a escolha entre celular e aparelho físico está em escoliômetro de celular ou escoliômetro físico?
As leituras são interpretadas em relação a limiares de triagem amplamente utilizados. São guias para decidir se convém procurar uma avaliação, não pontos de corte de diagnóstico. Os 5° vêm de Bunnell (1984), que os propôs como o menor ângulo significativo para identificar curvas de 20° ou mais de Cobb — e não qualquer escoliose —, e os 7° vêm de um trabalho posterior do mesmo autor (Bunnell, 1993), escolhido por manter a taxa de encaminhamento em torno de 3% em vez dos 12% gerados pelo limiar de 5°. No Brasil, esses mesmos números reaparecem na orientação da atenção primária, que escreve assim: “Um resultado positivo é indicado por assimetria ≥ 7 graus, em crianças com índice de massa corporal (IMC) no percentil < 85, ou ≥ 5 graus, em crianças com IMC no percentil ≥ 85.”
| Leitura de ATR | Interpretação geral |
|---|---|
| Menos de 5° | Leitura baixa. Em geral basta repetir a medição de tempos em tempos, principalmente durante o estirão de crescimento. |
| 5–6° | Merece atenção e acompanhamento mais próximo. É exatamente aqui que a orientação brasileira baixa a régua: 5 graus já contam como teste positivo quando o IMC da criança está no percentil 85 ou acima, porque o tecido mole disfarça a gibosidade e as costas ficam mais difíceis de avaliar a olho nu. |
| 7° ou mais | Limiar amplamente utilizado para marcar uma avaliação profissional (Bunnell, 1993). É também o valor que a orientação da atenção primária brasileira usa como teste de Adams positivo em crianças com IMC abaixo do percentil 85. |
| Um aumento que se mantém | O que importa não é uma leitura mais alta isolada, e sim um aumento que se mantém quando você repete a medição do mesmo jeito em outro dia. Medições repetidas das mesmas costas podem variar vários graus: no estudo de Navarro e colaboradores (UFRGS, 2020), duas formas válidas de medir a mesma rotação do tronco em crianças e adolescentes brasileiros ficaram a um erro quadrático médio de 3° uma da outra. Um único número mais alto não é, sozinho, prova de mudança. |
Duas coisas ajudam a não se assustar com um número. A primeira: alguma assimetria é o normal, não a exceção — no estudo de triagem de Bunnell de 1993, com 1.000 estudantes, 80% tinham pelo menos 3° de rotação. A segunda: o escoliômetro é confiável, mas não é perfeito. Coelho, Bonagamba e Oliveira (2013), na USP de Ribeirão Preto, mediram 17 níveis da coluna em 64 participantes, com dois avaliadores e três repetições cada, e encontraram confiabilidade excelente dentro de um mesmo avaliador e muito boa entre avaliadores, com sensibilidade máxima de 87% no limiar de 5°. Ou seja: o instrumento cumpre o que promete, desde que a mesma pessoa meça sempre do mesmo jeito.
Uma observação honesta sobre o peso desses números por aqui: não existe um PCDT da Conitec para escoliose, e os protocolos nacionais de encaminhamento para ortopedia não tratam do assunto. O que existe é essa orientação de atenção primária, muito consultada e fácil de achar, e ela coincide quase exatamente com as faixas deste guia. Os mesmos documentos também dizem, na mesma página, que “não há evidências para apoiar a implementação de rastreamento da escoliose em crianças e adolescentes”. Não é contradição: o Brasil não recomenda um programa populacional de rastreamento, mas diz com clareza a quem examina umas costas qual número importa.
O que uma leitura concreta quer dizer no seu caso está em o que significa uma leitura de 5°, 7° ou 10° no ATR e em valores normais do escoliômetro; o momento em que um resultado deve ser visto por um profissional está em quando procurar avaliação profissional.
É a diferença mais importante deste guia. O ATR é uma medida de superfície da rotação do tronco, feita com um escoliômetro. O ângulo de Cobb é medido por um profissional sobre uma radiografia panorâmica de coluna total — o exame que a orientação brasileira pede quando o teste de Adams dá positivo, de C7 a L5, em pé — e descreve a curvatura lateral da própria coluna; o diagnóstico de escoliose é confirmado a partir de um ângulo de Cobb de 10 graus. Os dois estão relacionados, porque uma curva maior tende a produzir mais rotação, mas a relação é moderada a boa, e não exata: os valores publicados vão de r = 0,46 a r = 0,54 (Amendt, 1990) até r = 0,7 no estudo brasileiro de Coelho e colaboradores (2013), conforme a população estudada. Correlação não é conversão. Nenhum escoliômetro pode informar um ângulo de Cobb.
A separação também é prática, e no Brasil ela é bem concreta: o ATR é o que você ou o médico da família conseguem obter numa sala, com um escoliômetro; o ângulo de Cobb depende de uma radiografia solicitada em consulta e, com frequência, de uma vaga na regulação. Por isso a maioria das famílias vai ter muitas leituras de ATR e pouquíssimos ângulos de Cobb. A comparação completa está em ATR e ângulo de Cobb e, para a pergunta sobre os dois se moverem separadamente, em o ATR pode mudar sem mudar o ângulo de Cobb?
A escoliose costuma progredir mais rápido durante o estirão de crescimento, e as curvas iniciais passam despercebidas com facilidade. Como medir o ATR é rápido, indolor e não exige radiação, ele se presta bem à repetição — em casa, na UBS ou numa consulta de rotina. O valor do ATR está menos em uma leitura isolada e mais numa série de leituras feitas sempre do mesmo jeito ao longo do tempo.
No Brasil isso tem um peso próprio. Não existe lei federal que obrigue a triagem de escoliose nas escolas, e o Programa Saúde na Escola trabalha com saúde bucal, saúde auditiva, saúde ocular, alimentação e atividade física, mas não com a coluna. Some a isso a distância entre notar algo e ser atendido: no Hospital Estadual Mário Covas, da Faculdade de Medicina do ABC, um levantamento com 87 pacientes menores de 18 anos que aguardavam cirurgia de deformidade encontrou uma espera média de 21,7 meses. Nada disso é motivo de alarme, e sim a razão pela qual um registro datado, repetido e feito sempre do mesmo jeito vale tanto: ele é a informação que viaja com a criança pela regulação. Anote a data, o valor e quem mediu, e leve isso para a conversa na UBS com o médico da família ou o pediatra — é a partir dali que o encaminhamento acontece.
Use o aplicativo Scoliometer para medir o ângulo de rotação do tronco pelo celular e manter um registro que você possa comparar ao longo do tempo.
O ATR é o ângulo de inclinação do tronco de um lado para o outro, medido em graus com um escoliômetro no ponto de maior assimetria enquanto a pessoa se inclina para a frente, no teste de Adams. Ele reflete a rotação do tronco na superfície do corpo, e não o formato da coluna que está por baixo.
Não. O ATR é uma medida de superfície da rotação do tronco, feita com um escoliômetro. O ângulo de Cobb é medido por um profissional sobre uma radiografia panorâmica de coluna total e descreve a curvatura da própria coluna; no Brasil, a orientação da atenção primária confirma o diagnóstico de escoliose a partir de um ângulo de Cobb de 10 graus. Os dois estão relacionados, mas não são intercambiáveis, e nenhum escoliômetro pode informar um ângulo de Cobb.
Menos de 5° é geralmente baixo, 5–6° merece atenção e 7° ou mais é o limiar amplamente utilizado para marcar uma avaliação profissional. A orientação que a atenção primária brasileira consulta usa exatamente esses valores: teste de Adams positivo com assimetria de 7 graus ou mais, ou de 5 graus ou mais quando o IMC da criança está no percentil 85 ou acima. Mais do que uma leitura alta isolada, importa um aumento que se mantém quando você repete a medição do mesmo jeito em outro dia. São guias de triagem, não diagnósticos.
Não. O ATR é uma medida de triagem. Uma leitura alta sugere que vale a pena uma avaliação profissional; só um profissional de saúde, normalmente com exame de imagem, pode diagnosticar escoliose. Além disso, medições repetidas das mesmas costas variam vários graus — Navarro e colaboradores (UFRGS, 2020) mediram um erro quadrático médio de 3° entre duas formas válidas de medir a mesma rotação do tronco —, então um único número mais alto raramente significa alguma coisa sozinho.
Durante o teste de Adams, o escoliômetro — inclusive um escoliômetro de celular — é apoiado sobre as costas e deslizado até encontrar o maior ângulo. Esse valor máximo é o ATR. Ser sempre a mesma pessoa medindo, sempre do mesmo jeito, torna o acompanhamento ao longo do tempo muito mais útil. Leve as leituras anotadas e datadas para a UBS e converse com o médico da família ou o pediatra.
Aviso médico: este guia é material educativo geral e de conscientização sobre triagem. Não é aconselhamento médico e não diagnostica escoliose nem qualquer outra condição da coluna. Um escoliômetro — inclusive um escoliômetro no celular — mede o ângulo de rotação do tronco como auxílio de triagem; não é o mesmo que o ângulo de Cobb e não substitui uma radiografia nem a avaliação de um profissional. Os resultados variam de pessoa para pessoa conforme a idade, a maturidade esquelética, o tipo de curva, o biotipo, a técnica de medição e a consistência com que as leituras são feitas. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado sobre a sua coluna ou a do seu filho.