O ângulo de rotação do tronco (ATR; a sigla ART aparece nas fontes clínicas portuguesas) é o número que está no centro do rastreio da escoliose. Descreve o quanto o tronco roda para um dos lados e obtém-se com um escoliómetro enquanto a pessoa se inclina para a frente. É também a medição em que assenta a orientação portuguesa sobre escoliose do adolescente, publicada pela Sociedade Portuguesa de Medicina do Adolescente com a Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar. Este guia completo explica o que é o ATR, como se mede, o que significam os valores, em que difere do ângulo de Cobb e para onde ir a seguir em cada etapa do rastreio.

Quando a coluna se curva, também roda, e a grelha costal e os músculos de cada lado deixam de ficar à mesma altura. Inclinar o tronco para a frente torna essa diferença evidente: de um lado as costas sobem numa gibosidade — a que vulgarmente se chama corcunda — e do outro descem. O ATR é o ângulo dessa inclinação de um lado para o outro, medido em graus no ponto de maior assimetria. Umas costas simétricas dão uma leitura próxima de 0°; quanto mais rodado estiver o tronco, mais alto é o valor.
Convém esclarecer um pormenor que baralha muitos leitores: o escoliómetro mede a inclinação da superfície das costas, e essa inclinação é consequência da rotação do tronco. Como a leitura é feita sobre a pele, o ATR reflete a forma exterior do tronco e não a forma exata da coluna que está por baixo. Daí ser uma medida de rastreio: um sinal rápido, indolor e sem radiação que diz «isto merece um olhar mais atento» — não um diagnóstico.
Não é um número de nicho em Portugal. O TeenTAC, o recurso de saúde do adolescente publicado por aquelas duas sociedades para médicos de família e para quem trabalha com adolescentes, descreve-o exatamente assim: «O escoliómetro é utilizado para rastreio da escoliose e quantificação do ângulo de rotação do tronco.» Aí a abreviatura aparece como ART; neste site mantemos ATR, que corresponde ao termo inglês angle of trunk rotation e ao nome da aplicação. É o mesmo ângulo, medido da mesma maneira, e vale a pena saber disso antes de comparar o que lê aqui com o que encontra numa fonte portuguesa.
O ATR é obtido durante o teste de Adams, a mesma flexão do tronco a que a literatura portuguesa também chama manobra de Adams. A pessoa inclina-se para a frente a partir das ancas, com os joelhos esticados, os pés juntos e os braços pendentes, até as costas ficarem aproximadamente horizontais. O escoliómetro — um aparelho físico do tipo Bunnell ou um escoliómetro de telemóvel — é pousado suavemente sobre as costas, perpendicular à coluna, e deslocado ao longo das regiões torácica e lombar até encontrar o ponto de maior assimetria. O valor mais alto observado é o que se regista como ATR.
A técnica passo a passo está em como usar um escoliómetro, e os erros que mais distorcem uma leitura estão em erros comuns ao medir com o escoliómetro. Enquanto está a medir, convém ter presente que a posição das costas, a mão que segura o aparelho e a altura a que a criança se inclina alteram o resultado — por isso é preferível medir sempre da mesma forma.
Os valores são interpretados face a limiares de rastreio amplamente utilizados. São guias para decidir se convém procurar avaliação, não pontos de corte de diagnóstico. Os 5° vêm de Bunnell (1984), que os propôs como ângulo mínimo significativo para identificar curvas de 20° ou mais de Cobb — e não de 10° —, e os 7° vêm de um trabalho posterior do mesmo autor (Bunnell, 1993), escolhido por manter a taxa de encaminhamento em cerca de 3% em vez dos 12% gerados pelo limiar de 5°. Esse estudo de 1993, com 1 000 alunos, encontrou 3° ou mais em 80% deles: uma pequena assimetria é o habitual, não um achado. Coelho e colaboradores (2013) descreveram uma sensibilidade máxima de 87% com o limiar de 5° face a curvas de 10° ou mais de Cobb.
| Leitura de ATR | Interpretação geral |
|---|---|
| Menos de 5° | Leitura baixa. Habitualmente basta repetir a medição de forma periódica, sobretudo durante o surto de crescimento. |
| 5–6° | Merece atenção e vigilância mais próxima. Em Portugal, é precisamente aqui que a orientação do TeenTAC baixa a fasquia: encaminhamento para Ortopedia a partir de 5° quando o IMC está no percentil 85 ou acima, porque o tecido mole disfarça a gibosidade e as costas são mais difíceis de avaliar a olho. |
| 7° ou mais | Limiar amplamente utilizado para marcar uma avaliação profissional (Bunnell, 1993). É também o valor a partir do qual o TeenTAC indica encaminhamento para Ortopedia numa criança com IMC abaixo do percentil 85. |
| Uma subida que se mantém | O que importa não é uma leitura mais alta isolada, mas uma subida que se mantém quando a medição é repetida com o mesmo cuidado noutra altura. Medições repetidas das mesmas costas podem diferir vários graus — as diferenças entre dois observadores chegam a ±4,4° (Balg) —, por isso um único valor mais alto não é, por si só, prova de alteração. |
Uma nota honesta sobre o estatuto destes números em Portugal: não existe nenhuma norma da Direção-Geral da Saúde sobre escoliose, nem qualquer protocolo clínico da Sociedade Portuguesa de Ortopedia e Traumatologia sobre a coluna. Os critérios do TeenTAC — ATR ≥7° com IMC abaixo do percentil 85, ATR ≥5° com IMC no percentil 85 ou acima — são material educativo de duas sociedades profissionais portuguesas, não uma norma nacional. Ainda assim, são o ponto de referência português que existe, e coincidem quase exatamente com as faixas utilizadas neste guia.
O que significa na prática uma leitura concreta está em o que significa uma leitura de 5°, 7° ou 10° e em valores normais do escoliómetro; o momento em que um resultado deve ser revisto por um profissional está em quando consultar um médico.
É a diferença mais importante de todo este guia e, em Portugal, há uma razão adicional para a sublinhar: o texto do TeenTAC usa as duas siglas lado a lado — ART para o ângulo de rotação do tronco e AC para o ângulo de Cobb — e quem chega a essa página à procura de respostas troca-as com facilidade. O ATR é uma medição de superfície da rotação do tronco, feita com um escoliómetro. O ângulo de Cobb é medido por um profissional sobre uma radiografia da coluna e descreve a curvatura lateral da própria coluna. Estão relacionados — uma curva maior tende a produzir mais rotação — mas não são o mesmo número e não há conversão fiável entre um e outro: os estudos publicados situam a correlação entre r = 0,46 e r = 0,54 (Amendt, 1990) e r = 0,7 (Coelho, 2013), consoante a população estudada. Um escoliómetro nunca pode dar um ângulo de Cobb.
A separação também é prática, e nota-se bem no percurso português: o ATR é o que um pai ou um médico de família consegue obter numa sala, com um escoliómetro; o ângulo de Cobb exige uma radiografia da coluna pedida no âmbito de uma consulta hospitalar de Ortopedia, para onde se chega por encaminhamento a partir do centro de saúde. Por isso a maioria das famílias terá muitas leituras de ATR e pouquíssimos ângulos de Cobb. A comparação completa está em ATR e ângulo de Cobb e, para a pergunta sobre os dois se moverem em separado, em o ATR pode mudar sem o ângulo de Cobb mudar?
A escoliose tende a progredir mais depressa durante o surto de crescimento, e as curvas iniciais passam facilmente despercebidas. Como medir o ATR é rápido, indolor e não exige exames de imagem, adapta-se bem à repetição — em casa, no centro de saúde ou numa consulta de vigilância.
Em Portugal isto tem um peso próprio, porque não existe rastreio organizado da escoliose. A Direção-Geral da Saúde mantém programas nacionais de rastreio para vários cancros e um rastreio sistemático da saúde visual infantil, mas nada de equivalente para a coluna. O que existe é o Programa Nacional de Saúde Infantil e Juvenil (Norma DGS n.º 010/2013), que inclui a Postura entre os parâmetros a avaliar nas consultas de vigilância dos 4 aos 18 anos — sem que as palavras escoliose ou coluna cheguem a aparecer no programa, e sem indicar método ou valor de referência — e que prevê apenas dois exames globais de saúde: aos 5 anos e aos 12–13 anos. Também não é a Saúde Escolar que verifica as costas: o Programa Nacional de Saúde Escolar (Norma DGS n.º 015/2015) trata de educação postural, mochilas e mobiliário escolar, e não contém exame.
Quanto à frequência com que a escoliose aparece por cá, o dado português disponível é modesto e local: cerca de 4% dos adolescentes de 10 a 16 anos rastreados com escoliómetro num estudo do sul de Portugal (Minghelli, 2014). É uma região, um momento e uma amostra — não uma prevalência nacional, que não existe. Nada disto é motivo de alarme; é apenas a razão pela qual medir em casa faz sentido cá. O valor do ATR está menos numa leitura isolada e mais numa série de leituras feitas sempre da mesma forma ao longo do tempo, que dá algo de concreto para levar ao exame global de saúde dos 12–13 anos.
Utilize a aplicação Scoliometer para medir o ângulo de rotação do tronco e manter um registo que possa comparar ao longo do tempo.
O ATR é o ângulo de inclinação de um lado para o outro do tronco, medido em graus com um escoliómetro no ponto de maior assimetria enquanto a pessoa se inclina para a frente. Reflete a rotação do tronco à superfície do corpo. Nas fontes clínicas portuguesas, como o TeenTAC, a mesma medição aparece com a sigla ART.
Não. O ATR é uma medição de superfície da rotação do tronco, feita com um escoliómetro. O ângulo de Cobb é medido sobre uma radiografia da coluna e descreve a curvatura da própria coluna. Estão relacionados, mas não são intermutáveis, e um escoliómetro não pode dar um ângulo de Cobb.
Menos de 5° é geralmente baixo, 5–6° merece atenção e 7° ou mais é o limiar amplamente utilizado para marcar uma avaliação profissional. Em Portugal, o TeenTAC indica encaminhamento para Ortopedia com ATR ≥7° quando o IMC está abaixo do percentil 85 e com ATR ≥5° quando está no percentil 85 ou acima. Convém lembrar que Bunnell (1993) encontrou 3° ou mais em 80% de 1 000 alunos: uma pequena assimetria é habitual. São guias de rastreio, não diagnósticos.
Não. O ATR é uma medição de rastreio. Uma leitura elevada sugere que vale a pena uma avaliação profissional; só um profissional de saúde, normalmente com exames de imagem, pode diagnosticar escoliose. Além disso, medições repetidas das mesmas costas diferem vários graus, por isso um único valor mais alto raramente significa alguma coisa por si só.
Durante o teste de Adams, pousa-se o escoliómetro — incluindo um escoliómetro de telemóvel — sobre as costas e desloca-se até encontrar o ângulo mais alto. Esse valor máximo é o ATR. Ser sempre a mesma pessoa a medir, sempre da mesma forma, torna o acompanhamento ao longo do tempo muito mais útil.
Aviso médico: este guia destina-se apenas a educação geral e à sensibilização para o rastreio. Não constitui aconselhamento médico e não diagnostica escoliose nem qualquer outra condição da coluna. Um escoliómetro — incluindo um escoliómetro de telemóvel — mede o ângulo de rotação do tronco como auxiliar de rastreio; não é o mesmo que o ângulo de Cobb e não substitui uma radiografia nem a avaliação de um profissional. Os resultados variam de pessoa para pessoa consoante a idade, a maturidade esquelética, o tipo de curva, a constituição física, a técnica de medição e a consistência com que as leituras são feitas. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado sobre a sua coluna ou a do seu filho.